Fluxo: concentração, engajamento e bem-estar

Você conhece o mito de Sísifo? De acordo com a mitologia grega, Sísifo, ao desafiar os deuses, foi punido com a missão de empurrar uma pedra de uma montanha até seu topo, sendo que a pedra rolava sempre para baixo, obrigando-o a recomeçar a tarefa. Ele executava diariamente o mesmo trabalho sem sentido, sem uma finalidade ou motivação.

Podemos utilizar esse exemplo da mitologia para representar uma realidade vista no mercado de trabalho, quando as pessoas permaneciam nas empresas, mesmo não vendo sentido em seu trabalho. Hoje, as coisas estão um pouco diferentes. Uma pesquisa apontou que 45% dos profissionais planejam mudar de emprego em 2017.

Cada vez mais, as pessoas buscam significado no que estão fazendo e, para se tornarem engajadas, procuram sentido e propósito, tanto no trabalho quanto na educação. Assim, um dos objetivos da liderança deve ser criar uma cultura que gere engajamento; a pergunta que qualquer líder (seja um professor em sala de aula ou seja o gestor de uma equipe de projetos) precisa responder é: como manter um grupo concentrado e engajado criando um clima de bem-estar?

O pesquisador e psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi criou o conceito de fluxo, ou flow, que é um estado mental altamente focado. Esse conceito, ao longo dos anos, tem sido usado nos mais variados campos, pois ajuda a despertar um sentimento de total envolvimento com alguma atividade, levando à realização e à alta performance dos indivíduos.

É claro que não existe uma fórmula mágica para despertar esse fluxo: concentração, engajamento e bem-estar, mas podemos utilizar os componentes do flow, elencados por Mihaly Csikszentmihalyi, para auxiliar nesse objetivo. Continue a leitura e confira!

Condições para se atingir o estado de fluxo

  1. As metas e os objetivos são claros: expectativas e regras são discerníveis, sabemos o que deve ser feito.
  2. A concentração e o foco fazem com que você envolva-se por completo: a imersão no processo é tão grande que a distinção entre pensamento e ação desaparece, não é preciso pensar o próximo passo, pois se torna algo automático e natural.
  3. Perda do sentimento de autoconsciência: nos tornamos parte da atividade e é para ela que direcionamos toda a nossa atenção.
  4. Sensação de tempo distorcida: nossa percepção de tempo fica alterada e, muitas vezes, nos surpreendemos ao olhar para o relógio e constatarmos quantas horas se passaram.
  5. Feedback direto e imediato: somos capazes de detectar acertos e falhas, sabemos o que estamos fazendo e o quão bem estamos atuando.
  6. Equilíbrio entre o nível de habilidade e de desafio: a atividade nunca é demasiadamente simples ou complicada, ou seja, a capacidade e a habilidade estão em plena harmonia.
  7. A sensação de controle pessoal sobre a situação ou atividade não é problema: ao atingirmos o estado de fluxo, passamos a acreditar no que estamos fazendo, serenamente e sempre confiantes.
  8. A atividade é recompensadora em si: o ego se perde nesse processo.

Quando acontece o estado de fluxo

Na imagem a seguir, é possível percebermos quando o estado de fluxo acontece, e outros estados psicológicos presentes em momentos de engajamento, trabalho, estudo, brincadeira, vivência. Tudo isso depende da nossa habilidade de equilibrar o tamanho do desafio à frente com o grau de competência utilizado para resolvê-lo.

Ao conseguirmos entrar em estado de fluxo, nos tornamos pessoas capazes de contribuir, engajadas, líderes de nós mesmas, concentradas e criativas. A consequência desse engajamento é o próprio bem-estar que reflete no desempenho e na produtividade. Já quando executamos atividades tediosas e nas quais não percebemos sentido, nossa produtividade cai, há desperdício de recursos e de bem-estar do indivíduo.

Como ocorre o estado de fluxo em grupos

No momento em que trabalhamos em grupos, seja com uma turma de alunos ou seja com uma equipe de trabalho, precisamos lembrar que ali estão pessoas diferentes e com graus de competência/expertise/experiência distintos, o que faz com que elas estejam em diferentes estados psicológicos perante o mesmo desafio, independentemente de ser uma aula, um treinamento ou um projeto. No mesmo ambiente, enquanto algumas pessoas estão super ansiosas com um novo desafio, outras estão entediadas ou sentem-se no controle da situação.

Desafio para as lideranças na sala de aula e no trabalho

Nesse contexto, entender de que forma é possível induzir o estado de fluxo com maior frequência nas pessoas ao seu redor é o desafio dos líderes. Entender o que desafia e motiva cada pessoa em sua equipe ou sala-de-aula, e dessa forma criar desafios condizentes e individualizados, pode ajudar a induzir o estado de fluxo, mesmo que as pessoas nem percebam. Entretanto, ao estarmos conscientes disso, podemos criar esses desafios para nós mesmos, a cada momento e desafio que temos a resolver/aprender/fazer/inventar.

Utilize os ensinamentos do fluxo para que as pessoas encontrem significado e relevância no que fazem e queiram contribuir e se desenvolver, fazendo parte de algo com propósito.

Nós acreditamos que essa seja a conexão fundamental com o engajamento pleno das pessoas, com suas paixões e seus talentos, e esse é um dos principais papéis dos futuros líderes nessa nova sociedade que emerge.

Um exemplo dessa nova forma de liderar, que trabalhamos nos nossos cursos e programas, é alinhar intenção, resultados esperados, regras, agenda, elementos que são combinados entre qualquer grupo, logo no início de um processo juntos (chamamos essa ferramenta de I.DO.ART). Com isso bem ‘facilitado’, conseguimos cumprir com o primeiro componente que Mihaly traz: ter objetivos claros em relação ao desafio à nossa frente.

Adam Smith, considerado o pai da economia moderna, constatou, há muitos anos, que a fabricação de alfinetes demandava 12 passos diferentes e concluiu que se somente uma pessoa executasse estes 12 passos, a produção seria mais lenta. Já se cada etapa fosse desempenhada por pessoas diferentes, a produção poderia aumentar substancialmente.

Essa lógica foi aplicada e encontrou seu espaço nas organizações por algum tempo. Entretanto, já não é tão aderente ao perfil do indivíduo de hoje que, nesse exemplo, se tivesse montado o alfinete, participando de todas as fases do processo, tendo bem claro o seu propósito, veria significado em seu trabalho e estaria mais motivado para sua execução, apresentando um rendimento superior em relação à situação de quem participa apenas de uma etapa do processo sem atingir o estado de fluxo – há estudos que apontam que, nessas condições, nossa produtividade aumenta em 12%.

E você, de que forma promove o fluxo: concentração, engajamento e bem-estar? Tem algum exemplo para compartilhar? Deixe sua mensagem nos comentários, vamos, juntos, cocriar novas ideias e abordagens sobre o tema, exercitando nossa criatividade!

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